Na tarde de hoje será travada uma batalha fundamental para o futebol brasileiro na Copa São Paulo de Juniores, a "Copinha". Joga-se esta tarde o presente e o futuro do futebol brasileiro, não apenas por envolver as futuras gerações de jogadores do Brasil, mas porque é um jogo que envolve o clube de maior torcida do Brasil, um dos mais tradicionais do nosso futebol, um clube cuja estréia no futebol tem quase 100 anos, um clube de 115 anos de existência, e um clube do interior paulista, um clube recente, de pouco mais de 6 anos. O leitor vai se perguntar: "ora Zé, o que tem isso demais?".
Mais do que um jogo que colocará a nova geração do Flamengo diante de sua primeira decisão importante, mais do que semear o futuro do Flamengo, entrarão em conflito dois modelos do futebol brasileiro: de um lado, um clube "de camisa" (e que camisa, digo eu), uma marca que, antes de ser comercial, é uma marca de um estilo, cercada de significados, representando um era de nosso futebol que está para além do futebol como mero negócio (e que negócio, digo eu). O Desportivo Brasil não é apenas um clube empresa, mas um clube de empresários. O clube pertence à empresa de marketing esportivo Traffic, uma das principais operadoras na contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo, proprietária de diversos jogadores de nosso futebol, como Kléber, "Gladiador", Diego Souza, entre outros...
Nos anos 80, quando a levantadora Jacqueline, a Jackie Silva do volei de praia, se transferiu do Flamengo para a Supergásbras, a partida que envolveu as duas equipes, substituiu o clássico mais importante do volei feminino em nosso país, o Fla x Flu, uma época romântica do esporte onde as jogadoras da seleção brasileira, Isabel, a ponteira e]Eliane e Jaqueline, brilhavam do lado do Fla, e a levantadora Célia, Heloísa e Dulce, do lado Flu. A entrada da Supergásbras no volei feminino desequilibrou o campo de forças no qual gravitavam as equipes no volei brasileiro e praticamente nunca mais houve um grande clube que tivesse uma grande equipe de volei. A exceção foi a temporada 2000/2001 cuja decisão envolveu o Flamengo e o Vasco, que montaram naquele ano equipes recheadas de estrelas do nosso volei como Virna e Leila, pelo lado do Flamengo, a levantadora Fernanda Venturini e a líbero Fabiana, pelo lado do Vasco. O fato é que a entrada das empresas no volei, praticamente tirou os grandes clubes do negócio.
Sem querer discutir as vantagens deste processo no sucesso internacional de nosso volei, que se tornou uma potência indiscutível no esporte, é engraçado ver aquelas torcidas uniformizadas com a marca de uma empresa, como o "Rio de Janeiro", que já foi Rexona, depois Rexona/Ades e hoje é Unilever, ou ainda o Finasa/Osasco, que já foi BCN/Osasco e é a atual equipe campeã, com o nome de Sollys/Osasco. Lembro ainda que a equipe "Rexona", já foi do Estado do Paraná, mas transferiu-se para o Rio de Janeiro. Mas são as vicissitudes de clubes empresa no negócio do esporte. Aos clubes restam ainda as divisões de base e a formação nas escolinhas, que acabam por vezes fornecendo estrelas aos clubes-empresa, caso do Nalbert, por exemplo, que jogou pela base do Flamengo e como jogador adulto nunca jogou pelo clube, que não tem uma equipe de volei masculino adulto há pelos menos 10 anos, ainda que os clubes-empresa realizem anualmente "peneiras" para formar as suas escolinhas.
No futebol, no entanto, dado o seu caráter de esporte de massa, um clube de empresários soa estranho. Se para o torcedor, especialmente no episódio da contratação de Ronaldinho Gaúcho, houve um vilão preferencial, o empresário do jogador, seu irmão, Roberto Assis, que não por acaso é dono de um clube de futebol no Rio Grande do Sul, o "Porto Alegre", fundado em 2006, imaginem como vamos encarar um clube que pertence à Traffic ou as outros empresários? Não se trata de eleger os empresários como vilões do nosso futebol, mas é preciso ter claro que num esporte onde "beijar a camisa" não significa necessariamente "amor à camisa" (sempre repito: Zico e Roberto Dinamite nunca beijaram, respectivamente, as camisas de Flamengo e Vasco, e não pode haver jogadores mais identificados com seus clubes quanto eles), os empresários são aqueles que estão criando e consolidando um modelo onde o clube de massa será sempre uma mera vitrine e balcão de negócios para eles.
E a torcida? A torcida vai se tornar aquele grupinho uniformizado com uma marca, ocupando um setor das arquibancadas de um estádio, animada por "cheerleaders" vestidas com roupas sensuais e danças acrobáticas?
O Flamengo joga o futuro do futebol brasileiro. Joga para colocar alguma coisa em algum lugar. E o grande paradoxo é que neste momento em nosso futebol, nenhum clube representa melhor a ideia de business e esporte do que o Flamengo, desde a contratação de Ronaldinho. Fico me perguntando, romântico, por que o Flamengo seria diferente do Desportivo Brasil? O clube dos empresários põe a nu uma realidade de nosso pobre futebol: os negócios falam mais alto.
Fecho com as palavras de Paulo da Portela imortalizada pela voz de Candeia:
Ouro desça do seu trono
Venha ver o abandono
De milhões de almas aflitas, como gritam
Sua majestade, a prata
Mãe ingrata, indiferente e fria
Sorri da nossa agonia
Diamante, safira e rubi
São pedras valiosas
Mas eu não troco por ti
Porque és mais preciosa
De tanto ver o poder
Prevalecer na mão do mal
O homem deixa se vender
A honra pelo vil metal
Nessa terra sem paz com tanta guerra
A hipocrisia se venera
O dinheiro é quem impera
Sinto minha alma tristonha
De tanto ver falsidade
E muitos já tem vergonha
Do amor e honestidade
Venha ver o abandono
De milhões de almas aflitas, como gritam
Sua majestade, a prata
Mãe ingrata, indiferente e fria
Sorri da nossa agonia
Diamante, safira e rubi
São pedras valiosas
Mas eu não troco por ti
Porque és mais preciosa
De tanto ver o poder
Prevalecer na mão do mal
O homem deixa se vender
A honra pelo vil metal
Nessa terra sem paz com tanta guerra
A hipocrisia se venera
O dinheiro é quem impera
Sinto minha alma tristonha
De tanto ver falsidade
E muitos já tem vergonha
Do amor e honestidade
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