O olho rútilo e a baba elástica e bovina do crioulo gritando a plenos pulmões: MENGO!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

RG = RC

 Foto: Emílio Domingos

Eu deveria estar falando da brilhante conquista dos meninos da Gávea na Copinha. De fato, foi o que dominou este coração rubro-negro no dia de ontem: a nova geração começa com talentos brilhantes, como o sensacional goleiro César, que já nos acréscimos garantiu a vitória com uma defesa mágica. Ou do brilhante Guilherme Negueba, que em certos momentos evoca a imagem de Geraldo Assobiador, tal a elegância com que desfila suas pernas negras e finas, alternando o ritmo entre passadas largas e passes precisos. Poderia falar também do chapéu do Luís Felipe "Muralha" ou do pequenino e abusado Rafinha. A imprensa quase que esgotou o assunto. O Olho Rútilo viu e registrou.

Mas meu grande amigo e seguidor Fred Coelho e a foto do meu outro grande amigo Emílio Domingos chamaram a minha atenção para um fato novo no futebol carioca. E ainda que o Olho Rútilo não estivesse presente para ver, os olhos da câmera de Emílio registraram e por isso eu posso falar...

Todos sabemos que historicamente os jogadores de futebol tem desde antanho ligações com o mundo do samba. Encontrados frequentemente em boates da Barra da Tijuca, em "pagodes" de gosto pra lá de duvidoso, jogadores de futebol nem sempre são conhecidos pelo seu bom gosto musical. Estes também costumam frequentar os camarotes de cervejarias junto com "celebridades" durante o carnaval e alguns até vestem fantasias e saem escolas de samba. Há ainda os que frequentem as quadras das escolas durante o período de ensaios. Diogo Nogueira, filho do grande João Nogueira, era amigo pessoal de Adriano, assim como os rubro negros Dudu Nobre e Ivo Meireles, presidente de Estação Primeira de Mangueira. 

Porém, nada disto chega a se comparar com o que podemos ver na foto acima. Retrocedo ainda um pouco mais, antes da foto de ontem, tirada no Instituto Moreira Sales, em homenagem prestada ao grande sambista Monarco, que na foto aparece com Timbira, em primeiro plano, e atrás, Mauro Diniz, filho de Monarco, e Paulão 7 Cordas. Vamos cruzar a Baía de Guanabara e ir até "a melhor roda de samba do Rio, que fica em Niterói", segundo Pedro Amorim, no Candongueiro, onde somos mais do que obrigados a dar razão ao brilhante compositor e bandolinista: sim, o Candongueiro é uma das melhores rodas de samba do Rio, pela qualidade dos músicos, pelas suas atrações, que reúnem o melhor do samba carioca, pelos frequentadores... Sim, o Candongueiro tem frequentadores ilustres  no mundo do samba, mas também do futebol como o nosso querido Ronaldinho Gaúcho. Aliás, cada vez menos gaúcho, mais comprovadamente carioca. 

Nada contra o sentimento regionalista dos gaúchos, que tem seu valor, mas desde que despontou para o futebol, R10, ou simplesmente, Ronaldinho (sem o "Gaúcho", usado para diferenciá-lo do outro, o "Fenômeno") pela picardia e deboche de seu futebol pouco ou quase nada tinha a ver com o futebol gaúcho. Jogando num estilo conhecido no sul como "faceiro", um futebol de dribles e jogadas de efeito, que pouco tem a ver com o estilo de "força", cunhado e consagrado pelo clube no qual foi revelado, o Grêmio, Ronaldinho mostrava deste então uma espécie de alma carioca aprisionada pelo duro verniz do gauchismo. Amante do samba, escolheu como tema da sua vida e da historia de sua família o clássico de João Nogueira, "Espelho", e assim como o poeta sambista, "se abraçou na bola e pensou ser um dia um craque da pelota ao se tornar rapaz". Quem não se recorda da seleção pentacampeã e seu hino, "Deixa a vida me levar", e a ginga do moleque que brilhou ao lado de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno, o coadjuvante de luxo da seleção do Felipão, o menino dentuço cheio de molejo sambando após marcar o golaço, um dos mais lindos da historia das copas e dos títulos brasileiros. Nada mais carioca que as comemorações deste Gaúcho no samba.

Ronaldinho dispensou as bombachas, colocou uma camisa listrada em vermelho e preto, vestiu uma calça de linho S-120 branca e um sapato bicolor. Trocou a boina por um chapéu panamá com fita vermelha, pegou um pandeiro e caiu no samba. 

Dirão os chatos de plantão: "pronto! agora só falta calçar o chinelinho". Eu respondo que muitas vezes encontrei o "Capacete" Júnior curtindo suas folgas - e Ronaldinho estava de folga -  nas quadras de Salgueiro e de Mangueira, sambando a noite toda, tomando uma cervejinha (e olhem, Ronaldinho não bebeu nada enquanto esteve no Candongueiro) e arrebentando nos campos, indiferente à patrulha irritante que hoje se faz aos jogadores de futebol - lembro ainda que Pelé e Garrincha fugiram algumas vezes da concentração na Copa da Suécia, sendo que nosso "Anjo das Pernas Tortas" deixou sua semente por lá. Que importa tudo isso? E se ele entrar em campo e arrebentar? O Mano Menezes deu sinais de que, se Ronaldinho estrear bem pelo Flamengo, uma boa sequência de jogos dará a ele nova chance na seleção.

Ora, Ronaldinho sempre foi carioca, escolheu o Flamengo porque o "Flamengo é o Flamengo". E nada traduz mais a alma carioca que o Flamengo. 

Mas outro detalhe chamou ainda mais atenção: Ronaldinho no IMS em um show de samba em homenagem a um dos ícones da Velha Guarda da Portela, Monarco. A foto não deixa mentir: sentado na primeira fila, de touca, ao lado de Monarco. A imprensa esportiva apurou, a foto de meu amigo Emílio não deixa dúvida. Finalmente, ao invés dos "pagodes de playboy da Barra", jogadores de futebol começam a cultivar os grandes redutos do samba carioca. Não me admira se no próximo domingo, depois do Flamengo e Vasco, Ronaldinho possa aparecer no Bip Bip ou no Cacique, para comemorar uma vitória do Mengão e aliviar a ansiedade em torno da estreia, dentro de uma semana. Vamos ver Ronaldinho na Lapa, no Carioca da Gema ou no Semente, tocando pandeiro junto com Paulão 7 Cordas, Mauro Diniz, dando canjas com meus amigos o vascaíno Moiseys Marques e Edu Krieger, e de quebra, brilhando com a 10 rubro negra, como outrora brilharam Zico, Júnior e alguns craques das noitadas e dos campos, como Romário, o também Gaúcho, Renato, o saudoso "gringo" Doval. 

Ronaldinho não precisa de atestado de político algum para notificar sua "carioquidade". Sua ginga, seu jeito, seu modo de jogar futebol, "faceiro", tem tudo a ver com o futebol carioca. Como foi feliz em Barcelona, Ronaldinho tem tudo para ser ainda mais feliz no Rio, no Flamengo, uma espécie de síntese desta cidade.

O melhor disto é uma espécie de "novo paradigma" para os jogadores de futebol: saem o "pagode paulista" e seus gemidos e o "breganejo", e entra o bom samba carioca. Quem sabe, deste modo nos livramos de monstruosidades como "sertanejo universitário" e vemos jogadores de futebol frequentando as escolas e grandes rodas de samba da cidade? Quem viver verá...



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