
Enfim, Ronaldinho Gaúcho é do Flamengo.
Como toda contratação de impacto, a vinda do craque para o Flamengo serve para ocultar uma dúzia de problemas do Mais Querido: a falta de um quadro social de peso, que seja capaz de tornar o futebol do clube auto-sustentável, a exemplo da campanha de sócios feita pelo Internacional de Porto Alegre; a estrutura física do clube, constituída de um bom CT, instalações capazes de permitir ao clube disputar as principais competições do país e continentais em alto nível, a exemplo do São Paulo, Cruzeiro, entre outros clubes, bem como um local capaz de recuperar a famosa frase consagrada pela geração de 1981: "Craque o Flamengo faz em casa", onde possam ser gestadas as futuras gerações do futebol rubro negro; a falta de um estádio próprio, a "casa da torcida", locatária privilegiada do Maracanã; e por fim, o mais importante, uma gestão transparente e organizada do futebol do clube, entre muitos outros problemas, como a nociva relação com empresas de "marketing esportivo" e empresários de jogadores. Como disse, se for listar, chegaremos facilmente a uma dúzia de problemas. E de fato esse não é o ponto aqui.
Saem notícias nos jornais, dizendo que a Roma está querendo se livrar de Adriano... E é claro que isto ouriça ainda mais a "Magnética", com sonhos de um ataque simplesmente imbatível, formado por Thiago Neves, Ronaldinho Gaúcho e Adriano. É claro, que no melhor dos mundos, um time assim pode ser simplesmente irresistível, mas isto nos reporta a dois problemas que tem sido a tônica dos debates em torno da vinda de Ronaldinho e do próprio Thiago Neves: o primeiro, uma frase que se repete à exaustão, que no meu entender reflete certa "dor de cotovelo" com os craques contratados pelo Flamengo, principalmente no que se refere ao Ronaldinho Gaúcho: "se ele quiser jogar".
O segundo problema é talvez mais sério, embora realmente não chegue a preocupar os rubro negros: a qualidade dos coadjuvantes neste elenco do Flamengo, que não dispõe de uma zaga forte, um meio de campo indefinido, formado por velhos conhecidos como Maldonado e Willians, jogadores que foram essenciais na conquista do brasileiro (aliás, sobre este tema, cabe não esquecer o lateral Léo Moura, um dos principais jogadores do clube nos últimos cinco anos), ao lado do superestimado Renato "Canelada", e jogadores menos votados como Marquinhos, Fernando, Fierro, e verdadeiras incógnitas como o novato vindo do Bahia, Vander, destaque na disputa de série B, e o argentino Botinelli, contratado por DVD. E ainda, quem formará o ataque deste time nesta temporada? Deivid, que esteve abaixo das espectativas no ano que passou, Diego Maurício, o "Drogbinha", que na volta da seleção sub-20 parece estar de malas prontas para o futebol português (mais precisamente, o Porto, que deve perder no fim desta temporada o atacante Hulk para o futebol inglês), o desconhecido Wanderlei, que jogou no Cruzeiro, além de garotos vindos da base como Guilherme Negueba.
O que dizer destes dois "problemas"?
Quanto ao fato de Ronaldinho Gaúcho "querer jogar", se ele não "vai ficar nas noitadas", ou se "vai estar em todos os pagodes da cidade", seguindo seus amigos do grupo Revelação, penso que se trata de uma questão bizantina... Ronaldinho está concentrado com os companheiros desde quinta feira na cidade de Londrina, isolado do público e sem dar as caras na noite. É claro que isso não quer dizer nada, se considerarmos o quão longa será a temporada e que o time já estreará no Carioca na próxima quarta-feira, dia 15/01, contra o Volta Redonda no Engenhão. O fato é que Ronaldinho vem mostrando disposição em trabalhar sério, vem conquistando os companheiros e parece estar motivado, segundo suas próprias declarações e dos companheiros, principalmente de Thiago Neves, que chegou junto com ele à cidade de Londrina. Por outro lado, sempre afirmei que Ronaldo, jogando no seu mínimo, será sempre um "fora de série". Ninguém tem dúvida que Ronaldinho é um grande jogador de futebol, e jogando o que vinha jogando no primeiro semestre de 2010, com Leonardo como técnico do Milan, chegou a ser lembrado pela imprensa para integrar o grupo da seleção brasileira na Copa de 2010.
Há outro fato, que as pessoas insistem em negar, mas a apresentação de Ronaldinho na Gávea demonstrou ao próprio jogador o significado de suas palavras, que viraram o mote da nova campanha do marketing rubro negro: "O Flamengo é o Flamengo". Ronaldinho, que havia sentido à distância o calor da Magnética quando de sua entrevista no Copacabana Palace, ficou assustado com a multidão reunida numa quarta-feira à tarde no estádio da Gávea. Ronaldinho tomou consciência de que ele será o principal ídolo de uma massa incomensurável de torcedores, que para ser uma nação, não precisa de plano ou jogada de marketing, não precisa ser uma "república popular". Aliás, esse é um princípio de nossa nação: como os tupinambás que mandaram em Pindorama durante séculos de história, somos uma nação que independe de formalismos ou reconhecimento vindo de fora. E Ronaldinho sentiu isso, sentiu o peso do Manto Sagrado, e sabe agora que ele não é mais um jogador comum: "para qualquer um a camisa vale tanto quanto a gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo".
E tudo o que falo, pode ser aplicado ao Thiago Neves que, tricolor confesso, pediu perdão à Nação Rubro Negra e se sentiu arrepiado ao vestir a camisa do Flamengo. Tudo pode não passar de palavras ao vento, mais do que as palavras, interessam as ações, e a "camisa que joga", aquela que "diante do furor impotente do adversário, (...) será uma bastilha inexpugnável", esta sim mostrará ao incrédulos e infiés o que ela poderá fazer este ano: sonhamos com a Tríplice Coroa, e como regente da orquestra temos o único técnico de futebol que pode ostentar esta glória: Vanderlei Luxemburgo.
Ouvi de bom rubro negro esses dias que o Flamengo de 2011 é um "time de mordidos", de homens que já tiveram o mundo aos seus pés e que hoje lhes é negado o mínimo de respeito... A lista é longa, começa com o próprio Vanderlei, chamado de "ultrapassado" no ano passado, mas tem ainda dois Ronaldos, um genial, o Gaúcho, outro o "Magro de Aço", autor do gol do título brasileiro de 2009, o Angelim, um Leonardo, o Moura, que muitos disseram que já tinha dado tudo o que podia pelo Flamengo, um Felipe, que quer "dar a volta por cima", agora, como diz o Mulamba, "fechando com o certo", e nesta categoria, o redimido, Thiago Neves, o devedor Deivid, e os meninos David Braz, Wellinton, Drogbinha, Galhardo, Negueba... A lista é imensa... Todos vilipendiados em 2010, depois de conhecer o sétimo céu de um título brasileiro vestindo a camisa do Flamengo. Sim, porque isto faz toda diferença. Lamento, mas com o Flamengo tudo é diferente. Todos podem ser campeões brasileiros e fazê-lo com todos os méritos. Isso ninguém discute. Mas que com o Flamengo é muito diferente, isso é óbvio. Basta dizer que o atual campeão brasileiro teve a sua festa restrita às fronteiras estaduais. Em 2009, a festa foi nacional. O campeão brasileiro era campeão do Brasil inteiro.
E justo por se tratar deste "time de mordidos" é que falamos no segundo problema: os coadjuvantes de uma orquestra que tem como spalla (para quem não sabe, é o primeiro violino de uma orquestra, o "primeiro homem" do maestro) Ronaldinho Gaúcho. Primeiro, Thiago Neves nem precisará se esforçar demais. Todos os olhos estarão voltados para o Gaúcho. E ele, Thiago, poderá ser o principal solista em várias execuções. É como se você tivesse, guardadas as devidas proporções, o Miles Davis e o Coltrane tocando juntos, e ainda tivesse o Cannonball Adderley... O time do Flamengo será como a gravação do genial "A Kind of Blue", que tinha o luxo de ter Bill Evans e Wynton Kelly no piano...
Ora, dirão, os incrédulos... E a defesa? Eu vos lembrarei que no meu primeiro título brasileiro, a defesa do Flamengo, desfalcada do Deus da Raça, Rondinelli, jogou com o simpático Manguito. E que cheguei a ver o grande time tricampeão com Zico, Júnior, Raul, Tita, Adílio, Carpeggiani, Andrade et alli, jogar na defesa com Nelson, o rei do chutão, e Manguito, que era simplesmente, Manguito. Para quem viu "Meriquinha dividiu é minha", Maldonado é quase uma reedição da regularidade de um Andrade ou Carpeggiani, sempre guardadas as devidas proporções, posto que os tempos sejam outros. E o carrapato Willians, bem orientado, é fundamental para qualquer equipe (não admira que Santos e Internacional estivessem de olho em nosso ladrão de bolas).
Sinceramente, o que acho é que o arco íris está tremendo. E com razão, porque o Flamengo de 2011 será avassalador. Digo isso porque não se trata de saber "se ele quer ou não jogar". A resposta é simples ele, Ronaldinho, e todos os demais querem e muito jogar.
Quem viver verá...
Nenhum comentário:
Postar um comentário