Fonte: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2011/01/reclamacoes-conversas-e-aplausos-ronaldinho-sofre-no-banco-do-fla.html
(foto de Alê Vidal)
No clássico filme de Federico Fellini, "Ensaio de Orquestra", a orquestra aparece como uma metáfora da humanidade, num mundo individualista, onde cada um dos músicos se julga mais importante que o outro a partir do papel de seu instrumento dentro do conjunto. Em postagem anterior, ao falar da chegada de Ronaldinho Gaúcho, citei uma orquestra como referência para avaliar o futuro do time do Flamengo: temos dois grandes solistas, Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves, um maestro respeitável, Vanderlei Luxemburgo, alguns grandes coadjuvantes "mordidos", como Léo Moutra, Maldonado e Willians, e outros de menor expressão e ainda os novatos. Falei também do genial conjunto de Miles Davis em "Kind of Blue". que além de ter ninguém menos que Jonh Coltrane e "Cannonball" Adderley, nos saxes tenor e alto, tinha o luxo de dois excepcionais pianistas como Wynton Kelly e Bill Evans, com uma "cozinha" com Paul Chambers, no baixo, e Jimmy Cobb na bateria.
Pelo que vi ontem, no jogo entre Flamengo e América-MG não dá para falar de uma grande orquestra. Como mesmo falei aqui, a principal virtude e a força do time do Flamengo não virá, necessariamente, dos talentos de seu elenco que, segundo diz-se por aí nas ruas "do meio para frente será ruim de aturar", mas pelo espírito presente nas palavras do capitão Léo Moura, que falou em "determinação e força de vontade" ou de Ronaldo Angelim, que sofreu um corte no rosto durante a partida, que falou que "mesmo em amistoso, quem é competitivo tem que disputar com vontade". Esse é o "time de mordidos" que falei. Esse é o espírito que deverá permanecer nesta temporada. Ao contrário do time confuso e acomodado do ano passado, onde o filme de Fellini resumia as difíceis relações dentro elenco: as confusões de Adriano, a tragédia do goleiro Bruno, o estrelismo de Petkovic, a perda de comando do maestro Andrade. Tínhamos no início do ano um time vencedor, que pensava não ter nada a provar a ninguém. Agora, ao contrário, temos um time que tem muito a provar e mesmo um craque mega-consagrado internacionalmente como Ronaldinho Gaúcho, a despeito da idolatria do público, parece ter que provar que não está em decadência. Thiago Neves tem que provar que tem muitos anos de sucesso pela frente. Léo Moura, que chegou a ser considerado um dos melhores laterais em atividade no país, Angelim, um dos melhores zagueiros do brasileiro de 2009, herói do título brasileiro, Vanderlei Luxemburgo, um dos técnicos mais vencedores de nosso futebol, todos parecem ter compreendido que é preciso voltar ao topo. E nada melhor que estar no maior, "O Flamengo é o Flamengo".
Quanto ao jogo de ontem, ficou uma impressão estranha sobre o time. Taticamente, Vanderlei parece ter montado um time compacto, que atua em bloco, que ora marca a saída do adversário, adiantando as linhas do esquema 4-5-1 (há quem fale em 4-2-3-1), ora recua, marcando a partir do seu próprio campo. Apesar de estar desfalcado ontem em seu meio de campo de Maldonado, que dá mais consistência e equilíbrio ao meio de campo e à saída de bola, Fernando, que apareceu pouco, não chegou a estar mal. Renato Abreu (o "Canelada") foi um dos jogadores mais acionados, porém, cansa pela sua indisplicência, apesar do chute forte e as boas subidas com Egídio pela esquerda. Este rapaz, aliás, é um caso sério. Egídio, se fosse Juan, teria sido vaiado a partir dos 20 minutos do primeiro tempo. Como ele não é o Juan, ele apenas irrita. Ofensivamente (como Juan) ele pode render bons cruzamentos, mas precisa ir à linha de fundo para fazê-los e, também como Juan, deve evitar os avanços pelo meio - no que foi advertido por Vanderlei. Renato pode virar, caso não ocorra a contratação de um lateral esquerdo, uma opção para a lateral esquerda.
A defesa falhou bisonhamente no gol do América, numa desatenção que já vem desde o ano passado. O zagueiro Gabriel subiu sem sequer ser contestado por algum jogador da defesa. Marcava-o o pequenino Willians. Este tipo de falha não pode ocorrer. Não dá para avaliar o goleiro Felipe, nem ao seu reserva Paulo Victor, embora tenha achado que o primeiro deveria sair na bola vinda de um escanteio, na linha da pequena área. Léo Moura pareceu mais preso, subindo menos, no esquema montado por Vanderlei, alternando as subidas com Egídio.
O novato Vander movimentou-se bem (apesar de me lembrar bastante o Iranildo, para o bem e para o mal), fez um belo gol e parece um bom jogador para compor elenco. Botinelli foi uma das causas de estranhamento neste time. Entrou e de cara errou dois passes e isolou uma bola. Mas cobrou com perfeição a falta do gol da vitória. Mais uma para o DVD que fez os dirigentes do Flamengo contratá-lo. Porém, foi pouco para o que se esperava dele. Quem sabe não foi o nervosismo da estréia. Fierro, como sempre irregular, deu um belíssimo passe para o primeiro gol, mas errou bisonhamente numa jogada em que recebeu um passe livre pela esquerda e mal conseguiu matar a bola. O time parecia fisicamente "travado", embora bem organizado e em momento algum desse a impressão de que pudesse perder o jogo, também não dava sinais de que pudesse ganhar, principalmente depois das substituições em atacado feitas depois dos 15 minutos do segundo tempo.
A decepção ficou por conta de Deivid, que pareceu alheio, perdido em campo, sem sangue, sem garra, sem vontade. Não parecia estar "mordido" como outros companheiros. Há quem dissesse que o esquema deixava-o isolado, porém, Vander e Renato Abreu apareceram em vários momentos próximos à área, assim como as subidas de Fierro, Egídio, Léo Moura, Fernando, Willians, mostrando um time compacto, com o meio campo bem próximo do ataque.O seu reserva imediato, o atacante Wanderlei também não entusiasma muito, apesar da bela caneta que aplicou num zagueiro do América. Já o garoto de 16 anos, Romário, um dos destaques do time campeão estadual pela equipe juvenil do Fla, pareceu um atacante "abusado" e sofreu a falta que resultou no gol da vitória. A disputa pela posição de titular no ataque pode ser vencida pelos garotos Diego Maurício, cedido à seleção sub20, e o novato Romário.
Foi apenas um ensaio de uma orquestra que parece estar afinada no diapasão de seu maestro e pronta para receber seus solistas, precisando apenas entrar no ritmo de uma competição. Deve chegar às semifinais da Taça Guanabara com o time tinindo, nos cascos. Até o clássico contra o Vasco, quando provavelmente já contará com Thiago Neves, o time deve estar mais azeitado e com mais ritmo e ouso cravar na loteca o Mengão vencendo sem dificuldades o clássico.

2 comentários:
sem dúvida, ainda devemos tentar contratar um zagueiro e um lateral esquerdo. Não acho que Renato ficará feliz com essa espécie de puxadinho, essa vaga improvisada na lateral. Prevejo corpo mole e mais atuações displicentes e apagadas. Além disso, Angelim já demonstrou que não tem uma personalidade forte de um xerife - que é o que precisamos na zaga.
Bodão,
Acho que um zagueiro até pode cair bem. Mas gosto da ideia de um Angeli "mordido", querendo encerrar a carreira em grande estilo. O Renato vai ter que botar o galho dentro. Ou ele vai enquadrar ou sai no meio do ano. Mas deve vir um lateral esquerdo... Mas quem? Júnior Cesar? Fábio Aurélio? Athirson???? Quem????
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