Cabeça a prumo segue o rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais" (Caetano Veloso)
Petkovic - Foto Marcia Feitosa (fonte: http://globoesporte.globo.com)
Ouvindo a canção de Caetano, após ler uma crônica de Eliane Brum, convidando-nos a nos colocarmos na pele do outro para sentir aquilo que o outro sente. No entanto, ao pensar no homem velho de sua crônica, a música de Caetano veio imediatamente em minha mente e, invariavelmente, fui obrigado a pensar no gringo Petkovic e sua situação no Flamengo. Devo dizer, antes de tudo, que sou fã declarado do jogador que melhor vestiu a camisa dez do Flamengo na última década. Sim, a primeira década do século XXI no Flamengo foi a década de Petkovic.
Num papo com outros rubro negros, dizia-se exatamente que Petkovic foi um dos protagonistas de duas das principais conquistas do Flamengo na década que se encerrou no ano passado: o tricampeonato 99-00-01 e o título brasileiro de 2009. Pet aparece como o principal responsável pelos lances e gols decisivos na abertura e no fechamento da década. Em 2001, nem é preciso comentar a importância de Pet no jogo final contra o Vasco, o passe perfeito na cabeça de Edílson na grande jogada pela esquerda e aquele gol mágico, uma das mais perfeitas cobranças de falta que já pude ver em minha vida. Oito anos depois Petkovic volta ao Flamengo, empurrado pela goela do então técnico Cuca e da diretoria de futebol, gerando uma crise (qualquer formigueiro no campo da Gávea torna-se razão para uma crise no Flamengo) que culminou com a demissão da direção do futebol do Flamengo. De um acordo feito para minimizar os efeitos de contratos perniciosos com o Flamengo, veio o retorno de um ídolo, cercado de desconfiança, é verdade. Mesmo o mais crédulo e apaixonado rubro negro vacilava diante da volta do gringo. O que Pet havia feito pelo Flamengo todos já sabiam, o que ninguém sabia era o que ele ainda poderia fazer.
Mas Pet brilhou no seu retorno. Foi decisivo em pelo menos três partidas fundamentais na conquista do título: os jogos contra São Paulo, Palmeiras e Atlético Mineiro. Além disso Pet cobrou o escanteio que resultou no gol do título, de Ronaldo Angelim. O papel que Pet desempenhou neste título de 2009 pode ser comparado àquele desempenhado por Júnior no título de 1992. Júnior foi o Maestro, o ponto de equilíbrio daquele time. Pet foi, indubitavelmente, o principal solista, o spalla da orquestra rubro negra no título brasileiro.
O ano de 2010, no entanto, foi ingrato para os ídolos rubro negros. Parecia que fechávamos uma década e um ciclo de vitórias da forma mais perversa e infeliz possível: confusões, crises repetidas, egos inflados, fracassos. O primeiro semestre de 2010 foi uma peça grotesca que anunciou um ano onde tínhamos tudo para dominar de modo absoluto o futebol brasileiro e tropeçamos nos nossos maiores erros: a desorganização e a falta de um planejamento sério, os contratos lesivos e o comportamento desrespeitoso de jogadores e dirigentes com o Flamengo, com a sua história e seus ídolos.
Primeiro ato: a melhor partida do Flamengo no ano, a sensacional virada no Fla x Flu, escondeu as crises que estavam por vir, mas já anunciava as primeiras tempestades: no intervalo do jogo onde atuava pessimamente mal, Petkovic é substituído e abandona o vestiario. O episódio começava a revelar as fraturas no elenco e na relação do técnico Andrade com os jogadores. Na sequência disto os problemas envolvendo Adriano, que iam desde as páginas de fofoca dos jornais às páginas policiais, Vágner Love que acabou indo parar também nas páginas policiais e o pior de todos os casos, o desaparecimento de Eliza Samudio, no qual estava envolvido o goleiro Bruno. E há ainda que ouse falar em uma "Fla-Press"...
O resultado disto tudo foi a demissão de Andrade e um descaminho total com o qual sonhávamos que terminasse com a chegada de Zico à direção do futebol do Flamengo. Somente a realização de um sonho para apagar a realidade de pesadelo que vivia a torcida do Flamengo. Mas infelizmente, a situação que envolveu Andrade obrigava-nos a uma reflexão sobre como o clube, leia-se bem, o clube, não a torcida, trata os seus ídolos. O Zico diretor de futebol saiu (ou quem sabe foi expulso?) do Flamengo pela porta dos fundos e sem deixar saudades. Não vou entrar no mérito sobre a gestão de Zico e dos problemas e resistências que teria enfrentado no clube para implementar um modelo de gestão menos lesivo ao clube do que aqueles que o clube experimentara anteriormente. Como craque do Flamengo e do futebol mundial, Zico é indiscutível. Como dirigente, nada posso afirmar pois nunca o conheci de perto nesta função. O que ele diz é que não tinha autonomia e nem poderes para gerir o futebol do Flamengo. Mas ele deu as devidas explicações que para mim são suficientes para preservar a sua imagem sagrada. Até os deuses podem errar.
O que se nota, no entanto, é que o lugar dos ídolos no Flamengo é sempre frágil. Andrade, Zico, Adílio, Nunes, Junior, para falar da geração que eu vivi e que encantou o mundo, mas a lista é ainda mais extensa e cheia de nomes de diversas gerações. E hoje Petkovic está neste lugar, da fragilidade, do ídolo incontestável que não tem mais espaço no Flamengo. O que Pet foi, todos nós já sabemos, o problema tem sido o que ele não é mais. Ou o que ele ainda poderia ser. Em 2009, antes de retornar ao Flamengo, a diretoria do futebol na época afirmava cabalmente que Pet não jogaria no Fla e que teria, no máximo, um jogo de despedida com a camisa rubro-negra. Pet foi um dos heróis do título. O ano de 2010, porém, foi ingrato para todos, inclusive para ele próprio. Mas e agora? Será que chegou a hora do veterano craque se despedir? O Flamengo, com as contratações de Ronaldinho e Thiago Neves, parece prescindir do talento de Petkovic, especialmente porque sua forma física não é, definitivamente, das melhores.
Porém, pergunto, é justo que Petkovic saia pela porta dos fundos junto com Val Baiano, por exemplo?
Não creio. Olho para Petkovic, aos trinta e oito anos, e vejo um homem velho. Que paradoxo. Petkovic é mais novo que eu... No entanto, solitário, ele sabe que já é imortal como o homem velho da canção de Caetano.

3 comentários:
Saber parar é difícil. Muito. Por exemplo, eu sou um boêmio e sofro de insônia. Resolvi parar de beber e minha saúde mental melhorou demais. Só que nos últimos dois anos esse conflito me fez ficar perdido... dentro de mim.
Analisando friamente percebo que o momento da aposentadoria do Pet foi em 2009, com o título de Campeão Brasileiro. Mas é difícil, ainda mais quando sua labuta é fazer o que gosta.
Poucos jogadores foram sábios em parar ou não parar. Fábio Luciano é um bom exemplo do homem e profissional com auto-conhecimento. Fez o certo.
Mas e os casos quando um jogador resolver antes da hora? Como exemplo o grande argentino Valido. Segue um texto copiado da wikipedia:
"Em 1944, já aposentado, ele foi à Gávea para disputar uma pelada com operários da sua gráfica. Ao vê-lo atuar, o técnico Flávio Costa o convidou para voltar ao time para a reta final do Campeonato Carioca daquele ano. Relutante, Valido aceitou convite e voltou aos gramados marcando presença na goleada de 6x1 contra o Fluminense. No jogo seguinte, a decisão contra o Vasco da Gama, Valido, apesar de atuar com 39 graus de febre, marcou o gol da vitória rubro-negra por 1x0 aos 41 minutos do segundo tempo, garantindo para o Flamengo o Tricampeonato Carioca de 42-43-44."
Eu fico imaginando se o saudoso Valido voltasse pra Buenos Aires e não construisse sua gráfica no Rio de Janeiro. Com certeza hoje, todos nós, não seríamos Penta-Tri Carioca.
Uma vez vi uma reportagem sobre o Maestro Júnior. Em 1990 ele era o melhor estrangeiro no Campeonato Italiano e o factóide Sebastião Lazaroni não o convocou para a Copa de 90. Um crime. Lesa-Pátria. Um insulto à arte do futebol. Em 1991 Luxemburgo barrou o capacete, colocando-o no banco. A nossa sorte foi que o Mestre dos Magos Carlinhos vê o futebol da mesma forma que Pixinguinha via a música. Dez uma seleção de moleques, jogadores guerreiros e um Maestro. Resultado? Pentacampeonato Brasileiro.
Para terminar, mês passado vi Zinedine Zidane, o último dos peladeiros, afirmar que estava arrependido de ter parado. Pois hoje tem a certeza que jogaria mais três temporadas com alta qualidade.
Pet, não importa por qual porta saírá. Não importa se errou ou não o momento. O mais importante é que agora você é um imortal. Um ídolo eterno como Valido, Júnior, Fábio Luciano e Zidane.
Saber parar é difícil. Muito. Por exemplo, eu sou um boêmio e sofro de insônia. Resolvi parar de beber e minha saúde mental melhorou demais. Só que nos últimos dois anos esse conflito me fez ficar perdido... dentro de mim.
Analisando friamente percebo que o momento da aposentadoria do Pet foi em 2009, com o título de Campeão Brasileiro. Mas é difícil, ainda mais quando sua labuta é fazer o que gosta.
Poucos jogadores foram sábios em parar ou não parar. Fábio Luciano é um bom exemplo do homem e profissional com auto-conhecimento. Fez o certo.
Mas e os casos quando um jogador resolver antes da hora? Como exemplo o grande argentino Valido. Segue um texto copiado da wikipedia:
"Em 1944, já aposentado, ele foi à Gávea para disputar uma pelada com operários da sua gráfica. Ao vê-lo atuar, o técnico Flávio Costa o convidou para voltar ao time para a reta final do Campeonato Carioca daquele ano. Relutante, Valido aceitou convite e voltou aos gramados marcando presença na goleada de 6x1 contra o Fluminense. No jogo seguinte, a decisão contra o Vasco da Gama, Valido, apesar de atuar com 39 graus de febre, marcou o gol da vitória rubro-negra por 1x0 aos 41 minutos do segundo tempo, garantindo para o Flamengo o Tricampeonato Carioca de 42-43-44."
Eu fico imaginando se o saudoso Valido voltasse pra Buenos Aires e não construisse sua gráfica no Rio de Janeiro. Com certeza hoje, todos nós, não seríamos Penta-Tri Carioca.
Uma vez vi uma reportagem sobre o Maestro Júnior. Em 1990 ele era o melhor estrangeiro no Campeonato Italiano e o factóide Sebastião Lazaroni não o convocou para a Copa de 90. Um crime. Lesa-Pátria. Um insulto à arte do futebol. Em 1991 Luxemburgo barrou o capacete, colocando-o no banco. A nossa sorte foi que o Mestre dos Magos Carlinhos vê o futebol da mesma forma que Pixinguinha via a música. Dez uma seleção de moleques, jogadores guerreiros e um Maestro. Resultado? Pentacampeonato Brasileiro.
Para terminar, mês passado vi Zinedine Zidane, o último dos peladeiros, afirmar que estava arrependido de ter parado. Pois hoje tem a certeza que jogaria mais três temporadas com alta qualidade.
Pet, não importa por qual porta saírá. Não importa se errou ou não o momento. O mais importante é que agora você é um imortal. Um ídolo eterno como Valido, Júnior, Fábio Luciano e Zidane.
Brilhantes todas as suas colocações. Concordo plenamente com tudo que você escreveu e lamento muito, muito mesmo ver nosso ídolo Dejan Petkovic nesta situação.
Viviane Belchior.
Postar um comentário